18 de abril de 2011

[RESENHA] INSÔNIA (GRACILIANO RAMOS)


Treze contos do romancista de "Vidas secas", em que estão presentes a secura emotiva e a economia vocabular, características estilísticas que convivem com a precisão psicológica.
Insônia. Graciliano RAMOS. Editora Record, 1997, 196 p. 13. ed. 
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Insônia é um livro com 13 contos de Graciliano Ramos que traz, como personagem fiel e protagonista... a própria insônia! Esta vela a crise e as várias facetas do homem em situações distintas, dentro de um contexto psicológico e social, descortinando a vergonha do sistema e as fraquezas humanas. Basicamente.

Sim ou não?
Esta pergunta surgiu-me de chofre no sono profundo e acordou-me.
Sim ou não?
Quem me está fazendo na sombra esta horrível pergunta?
Sim ou não?
Como entraram aqui estas palavras? Por onde entraram estas palavras?

Existe um sopro de inquietude passeando aqui e ali, por cada conto, atingindo-nos como uma bofetada: o autor não quer fazer seu leitor se compadecer, simplesmente, mas alimentar em nós a consciência da realidade, de nossos pontos falhos e nossos momentos de covardia em determinadas situações... A eutanásia; os últimos momentos em uma sala de operações; uma criança que, de tanto ouvir que tinha parte com o Mau, acabou por desenvolver ações que condiziam com a fama; o que existe de belo e de trágico na infância, quando nos deixamos cativar.

Insônia retrata uma trama psicológica e começa por um questionamento simples... SIM OU NÃO? É como um thriller, criando expectativa em torno das perguntas que despertam o homem no meio da noite. Em um momento, Graciliano nos faz questionar as razões da insônia do próprio narrador. Tirou a vida de alguém ou a razão de esse alguém viver? Está apenas louco? Sente medo? Possui um trauma? Está apenas sonhando? Será uma saudade ou arrependimento? Uma preocupação ou apenas excesso de café na noite anterior? Disse palavras duras a alguém que não merecia ouvi-las? Foi injusto com alguém? Terá invadido um lugar e teme ser perseguido? Já foi segurança ou vigia, já se feriu ou quase morreu e não consegue mais ter paz à noite? Está escondido de uma ameaça? Está fugindo? Nenhuma das alternativas? A minha imaginação voou durante alguns contos, e até depois.

Entramos na experiência de alguém que tentou roubar com pouca experiência no assunto – a bem da verdade, despertei no meio da noite, depois de ler o segundo conto; a investida terminou como era de se esperar. O interessante é o conflito de princípios que se desenrolam na cabeça de um bandido dividido entre a necessidade e a possível punição divina. A experiência mental se torna mais forte com a passagem pelo hospital, onde o cidadão fica obcecado com o relógio e a passagem do tempo, e observa todo o resto com um pouco de tédio. Um dos meus contos favoritos.

Insônia, na verdade, torna-se uma metáfora para Abrir os Olhos - você não consegue dormir, então qual a alternativa, sentar no escuro e fumar até se unirem as pestanas, ou observar o mundo e os problemas em sua forma mais crua, sombria e verdadeira – como as sombras, que só se movem na calada da noite? Em dado momento, o autor mostra a sua pouca esperança na recuperação do sistema, mas não sem uma total reconstrução, uma reconfiguração social extrema, chegando a conclusões absurdas do ponto de vista humano.


Seria bom que as cadeias se enchessem e abarrotassem, até não haver cá fora nenhuma semente ruim (....) D. Aurora achava natural o despovoamento do país. Antes isso que aceitar misturas perigosas e corrutoras. Apesar de muito corte e muito estrago, ainda sobrariam muitos elementos sãos, que se multiplicariam. D. Aurora desejava uma nova humanidade, pensava nela com ternura, enquanto odiava furiosa adversários e neutros.



Ele utiliza uma incrível abordagem psico-social, ao mostrar as várias faces que mostramos ao mundo e o constante uso que fazemos da mais prejudicial, algo que curiosamente me lembrou o professor Dumbledore quando diz que "os seres humanos têm o condão de escolher o que é pior para eles"; a frieza, a hipocrisia, a ética que surge nos momentos menos esperados; os extremos a que o amor nos leva; os nossos instintos mais primitivos.

Percebemos também o adorável regionalismo [não me canso das particularidades da nossa língua] no modo de falar dos personagens, e a preocupação do autor com a localidade, o ruralismo e as cnvenções: Graciliano brinca com a tendência humana a um comportamento embaraçoso quando nos deparamos com velhos conhecidos que se tornaram poderosos; também mostra a crueldade que existe no julgamento por aparências. Outro conto que me conquistou.

Honestamente? A nota três é só por causa do número de pausas que precisei fazer para consultar o dicionário e porque, em alguns momentos, a leitura fica lenta, é preciso fechar os olhos e pensar um pouco ao fim de cada conto [o que, no fim das contas, é algo bom]. É um livro que requer muita paciência, se você quer compreender o que o autor quis dizer...  Mas vale a pena, no fim. 

13 Comentários:

★★ GIZA ★★ disse...

BELA POSTAGEM AMIGA.
GRACILIANO É INCRÍVEL MESMO.
BEIJOS

@whosthanny disse...

Parabéns pela resenha super bem escrita. Quando vi o livro, já pensei: não faz o meu estilo. Fazer o que, sou uma garota de romances água-com-açúcar xD Mas fiquei bastante interessada e acho que leria por curiosidade. O que me desanima é o vocabulário, não tenho paciência pra procurar significado no dicionário como você :/

xx thanny in wonderland

Beatriz disse...

Ai, Tyz, desculpa, mas eu achei esse livro muito chato =X

A resenha tá super bem escrita (parabéns, como sempre). XD

Bjoss

Riso disse...

Eu preciso concordar com a Beatriz.
Eu li por causa da escola, e sua resenha tá muito bem feitinha, mas não tem quem me faça ler esse livro, foi malz.

Fuiz.

Patrícia Camargo disse...

Sabe, me lembrei de livros de terror com a sua resenha o.o À la King e tudo mais HAHA

Paula C. disse...

Sua resenha está ótima, bem explicativa, parabénsss! Nunca li nada do autor, mas achei este livro bem interessante.

Raquel Pereira disse...

Por incrível que pareça, até hj eu nunca li nada de Graciliano Ramos.
Mas posso dizer que sua resenha ficou mt boa. Dá vontade de ler o livro.

Bjok

Aione Simões disse...

This, o livro parece inquietante e excelente.
Não tive a oportunidade de ler, mas acho que adoraria!
Engraçado que estou lendo Um Lugar Escuro e usei praticamente a mesma expressão que você para o autor, que o livro parece um tapa na cara a cada página, porque tem o mesmo propósito que Insônia: despertar para a realidade!
Adorei a resenha e fiquei curiosa pra ler o livro!
Beijos!

Sabrina disse...

Graciliano Ramos é, sem dúvida, um ícone da nossa Literatura Brasileira.
Realmente, esses livros de autores considerados mais consagrados são meio que difíceis de compreensão devido à própria linguagem mesmo. Temos que sempre estar com um dicionário do lado. Não é um tipo de leitura que flui rápido devido a vários elementos que fazem com que paremos e retomemos a leitura de um parágrafo, por exemplo. (Pelo menos, comigo é assim, em algumas obras. rsrsrs)
Não conhecia ainda essa obra dele. Vô ler depois! ;)

Beeijo*;
@BrinaSophie

Nil Macedo disse...

Graciliano Ramos realmente e muito bom. Pena que eu nao goste de livros de contos, independente de quem seja o autor. Mas a sua resenha ficou maravilhosa. Da ate vontade de arriscar e ler. rs.

bjs.

http://booksandmuchmore.blogspot.com

Paloma Costa disse...

Acho esse livro bem diferente pelo fato de ser a própria insônia e com toda a certeza é uma das minhas próximas leituras.
Beijos!

mariana disse...

Ah, do Graciliano só li São Bernardo, na época pra fazer uma peça na escola(E lá se vão vinte longos anos...), confesso que na época não gostei, mas até hoje lembro das minhas falas.Quando se fala em Graciliano, me bate uma nostalgia, muita vontade de reler São Bernado...

André Cardoso disse...

Poxa! Gosto tanto de Graciliano Ramos, que não posso me furtar, em dizer, que é uma maldade achar um livro dele chato, é desconhecer o gênio intimista, que Graciliano é

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